10 de dezembro de 2011

Regressar - parte 03 - Um Bilhete para o Adeus


Tomás não conseguia acreditar no que via. Estava totalmente diferente! Desviando o olhar do espelho, chegou ao fim do corredor e desceu as escadas a correr.
- Mãe? Estás aqui?! - gritou ele, mas não obteve resposta. Entrou em várias divisões, mas não reconhecia nada presente nelas. Tudo era diferente, e quanto mais via, mais se lembrava do que nunca tinha visto. Pessoas, lugares, situações... Era uma chuva de memórias para a qual ele não estava preparado. Parou na sala de estar, e respirou. Sentia a cabeça pesada, e de repente, soube que alguém o esperava no jardim. Dirigiu-se à porta das traseiras.
Sara estava sentada no muro que rodeava a casa, quando Tomás saiu da casa a correr e parou, a olhar para ela. A rapariga cantava, e a sua voz era surpreendentemente tranquilizante. Olhou dentro dos seus grandes olhos castanho-avelã que encontraram os seus verdes, e viu serenidade. Aproximou-se dela e abraçou-a, sentindo que a conhecia como se conhecia a si mesmo. Apesar disso, na sua cabeça uma pequena voz murmurou: "Mas quem é esta mulher?". Afastou-a de si.
- Quem és?
Sara sorriu.
- Olha em volta. Observa e absorve toda a informação que conseguires. Vou levar-te a um lugar.
Tomás olhou em redor. Atrás de si erguia-se uma enorme casa amarela, com telhado verde e grandes janelas com vasos de flores nos parapeitos. Parecia estar um pouco distante, o que era estranho, já que Tomás tinha acabado de sair dela. O céu alaranjado pelo pôr-do-sol estendia-se até ao horizonte, e assim ele apercebeu-se, ao descer o olhar para as redondezas, que aquela era a única casa daquela rua. Passavam pessoas de bicicleta, pássaros melodiosos e a brisa quente de um verão que começa a adormecer afagava-lhe a cara como quem se despede.
- Onde estamos?
Sara olhou fixamente para ele.
- Nesta realidade, esta é a tua casa. Vives aqui com a tua família, e o teu nome é Diogo. Tens vinte anos, estudas artes performativas e o teu sonho é ser uma estrela de cinema. Namoras comigo.
Tomás observava-a. Parecia não ter linhas de expressão; não demonstrava a mais ínfima emoção, e falava de forma quase automatizada. Ouvira o que ela acabara de dizer, mas não conseguia acreditar. Um gato correu para atravessar a estrada, fazendo dois ciclistas desviarem-se e subir o passeio ao lado do muro. Tomás teve uma estranha sensação de medo, urgência em fugir.
- De que estás tu a falar?
Ela saltou do muro e começou a andar. Tomás seguiu-a. Sentiu que ela o ia levar ao tal sítio. Sara caminhava de uma forma despreocupada, como se passeasse por ali diariamente. Atravessaram o jardim e saíram da propriedade. Lançando um último olhar à grande vivenda amarela, Tomás seguiu atrás de Sara, mas ela já atravessara a estrada e esperava-o no passeio oposto, de mãos entrelaçadas em frente à saia, com os longos cabelos loiros ondulados a brilhar com o reflexo do entardecer, e um sorriso enigmático a desenhar a primeira expressão que ele lhe via. Por trás dela, um bosque deixava o sol morrer entre os seus ramos, dando a sensação que a noite nascia atrás dela. 
Assim que pôs um pé na estrada, dois ciclistas apareceram, e atrás deles dois gatos, e atrás dos gatos um autocarro. A alta velocidade, os ciclistas desceram a rua, os gatos escapuliram-se para o canteiro da casa amarela e o autocarro travou bruscamente em frente a Sara.
- Não vens? - espreitou ela, inclinando-se para o lado. Tomás atravessou a rua cuidadosamente em passo rápido, e entraram juntos no grande autocarro azul, com o sol a desaparecer por completo no horizonte. Sara pediu ao simpático senhor:
- Um bilhete para o Adeus, por favor.

4 de dezembro de 2011

Regressar - parte 02,5 - Acordar

Aquela sensação fria e suave... Abriu os olhos. Estava de volta à sua cama, ainda com a almofada por cima da cabeça, mas algo estava diferente. Levantou a cabeça e pestanejou várias vezes.
O quarto parecia ser outro. Aliás, era outro. A cor escura a que se habituara nas paredes dera lugar a um cor-de-laranja cheio de vida que parecia sorrir, feliz. Tinha agora não uma mas três estantes cheias de livros dos mais variados temas alinhadas ao longo de metade da parede. Um suave cheiro a doce de limão entrava pela janela, acompanhado por melodias entusiásticas do que parecia ser um diálogo entre dois canários. Ao lado do roupeiro enorme estava um skate, e a meio da divisão uma poltrona, posicionada de frente para a janela. Se se sentasse nela naquele momento, ficaria completamente banhado pela luz do pôr-do-sol. A cama era grande como sempre fora, mas era diferente. Era macia e convidativa ao sono, o que fez Tomás deitar de novo a cabeça na almofada e espreguiçar-se, como quem acorda de uma longa noite de sonhos. Na mesa de cabeceira estavam uns óculos. Tomás esticou a mão para os agarrar, mas a cabeça doeu-lhe repentinamente. Dezenas de pontadas picavam-lhe a parte de dentro da cabeça, como se tivesse um ouriço-cacheiro de patas para o ar dentro do crânio. Via imagens a passar em frente aos seus olhos, recordações de que não se lembrava, memórias que não sabia ter vivido, medos que não conhecia e desejos que não desejara até àquele momento atravessaram-no, literalmente, de um lado ao outro; sentia uma corrente de ar frio a passar através do seu peito, do seu pescoço e da sua cabeça, e ficou tonto. Enterrou a cabeça na almofada e encolheu-se, sustendo a respiração durante uns segundos. Depois, respirando fundo várias vezes, levantou o dorso da cama e sentou-se, sem deixar os pés tocarem no chão. Instintivamente, pôs os óculos e olhou em seu redor.. Via agora tudo muito melhor, mas mesmo assim não percebia o que se passava. Estava no seu quarto, mas ao mesmo tempo sentia estar no sítio errado. A grande janela deixava entrar tantos raios de luz do pôr-do-sol, e isso transmitia-lhe uma sensação de tranquilidade imensa. Dirigiu-se à porta, e o cheiro mudou. Agora cheirava intensamente a chocolate, como quando se assa um bolo de chocolate no forno. Aquele cheiro era-lhe familiar. Levantou-se rapidamente e saiu do quarto. Precisava de ver a mãe, de perceber o que se passava, de saber que estava tudo bem... E parou a meio do corredor. E que belo corredor. Mas que casa era aquela, que lhe era tão familiar, e ainda assim, tão estranha? Vasos com plantas, belos quadros pendurados nas paredes, paredes essas decoradas com um belíssimo papel de parede de cor creme. À sua frente, um enorme espelho mostrava-lhe uma pessoa que não conhecia. Aproximou-se, e a pessoa do outro lado imitou-o. Virou a cara, e a pessoa fez o mesmo, e Tomás sentiu-se congelar de desespero. Estava completamente diferente! Cabelo loiro, olhos verdes, barba! Estava alto; demasiado alto para um menino de onze anos.
Mas por que estava a pensar nisso? Tinha vinte...
Não, tinha onze.
Vinte!

As vozes na sua cabeça não paravam. Não sabia quem era, nem por que o era, nem quando o era. Sentia-se ali mas não o estava, e simultaneamente não tinha como não estar. Olhou fixamente em frente: um espelho não mente.


2 de dezembro de 2011

Mistérios Da Vida - II.5

Sempre se orientara pela intensidade das luzes existentes na sua mente. Elas diziam-lhe o que fazer, quando, como, com quem e porquê. Pequenas ideias passeavam no seu cérebro, vindas da lareira da alma, e iluminavam a sua consciência: quentes, crepitantes, como uma pequena fogueira que arde, alegremente.
Mas agora as luzes tinham desaparecido. As pequenas bolhas de sabão com aspecto inflamável estavam apagadas, adormecidas, como a cinza que sobra de um incêndio, e por muito que Filipe tentasse decidir o que fazer a seguir, apenas uma pequena luz, trémula e tímida, restava. Uma luz solitária que lhe aquecia uma ideia: fugir. Fugir daquela cidade, daquelas pessoas cruéis que o conheciam desde criança e que o maltratavam, que o adotaram por capricho, por inveja dos seus conhecidos, por ambição de parecerem uma família interessante. Lisboa parecia a cidade indicada. Era grande, povoada o suficiente para "desaparecer" lá dentro, rica em cultura e distrações que o ajudassem, além de ter lá amigos que lhe garantiam entrevistas pormissoras em locais emblemáticos, em lojas de centros comerciais e até mesmo em dois ou três bares bastante lucrativos do Bairro Alto. Nunca sentira que pertencia ao Porto, e embora achasse a cidade linda, não era feliz. E depois daquela noite, daquela violência que o mantinha acordado havia horas e lhe apagara todas as chamas que o definiam, ele só pensava mesmo em fugir. Esperava que essa fuga o ajudasse a encontrar maneira de as reacender, para não se perder para sempre. Tinha de ligar rapidamente à sua melhor amiga: Laura.

25 de novembro de 2011

Mistérios Da Vida - II

Abriu os olhos. Sentiu a cabeça pesada contra a almofada e voltou a fechá-los. Respirou fundo. Onde estava? Não sabia. Não havia sons, não havia aromas no ar, não havia nada. Ou era ela que não sentia nada. Talvez não pudesse, ou talvez não conseguisse. Só sentia o medo a pressionar-lhe a consciência, e desejou voltar a adormecer. Flashes cegavam-lhe a mente, gritando para serem vistos, mas Laura fugia deles. Não queria refletir no que acontecera, não queria lembrar a noite passada. Não queria pensar mais. Naquele momento, desejou desintegrar-se, desejou voltar no tempo e impedir que os seus pais se conhecessem, desejou não existir, simplesmente.
A noite passada fora o culminar de tudo. A droga, os cigarros, o álcool, a morte que a convidava a viver com ela. Abriu os olhos novamente e sentou-se na cama. Estava no seu quarto. Olhou pela janela e percebeu que era de manhã. Ainda estava presa naquele maldito dia. O sol acariciava-lhe a face, quando o que Laura mais desejava era a escuridão. Dava-lhe uma sensação quente, quando o que ela ansiava era o frio gélido que a congelasse. Começou a lembrar-se da sua irmã, e do destino trágico que a recebeu no seu 18º aniversário.

«Laura tinha vinte e três anos e a sua irmã, Joana, estava a um dia de completar dezoito anos, no dia em que ambas foram assaltadas à mão armada numa rua duvidosa da cidade do Porto. Em visita a amigas, as irmãs voltavam do cinema juntas quando foram cercadas por quatro homens encapuçados. Laura atravessou-se no caminho deles, e prometeu fazer o que fosse necessário para que deixassem a irmã ir embora. Olharam-na, tocaram-lhe, decidiram que iriam divertir-se com ela. Joana, lavada em lágrimas, compreendeu o olhar da irmã e começou a recuar. Virou costas e, assim que começou a afastar-se, o assaltante que estava agarrado a Laura ergueu a arma e, com o som de um trovão, baleou Joana nas costas. O ruído alertou os moradores, que ligaram luzes e vieram às janelas, mas que já só encontraram uma rapariga ruiva a gritar por ajuda, enquanto alguns vultos desapareciam nas sombras escorregadias da noite. Laura chorou durante a viagem até ao hospital, chorou na sala de espera, chorou com a chegada das amigas, e parou de chorar quando o médico veio e disse a palavra mais temida por quem espera... "Lamento". »

Apercebeu-se, assim, que ainda conseguia sentir. Pelo menos, sentir saudade de não ser ninguém.

24 de novembro de 2011

Mistérios Da Vida - I

Laura, nas suas botas pretas até ao joelho e vestido azul escuro curto, vagueava pelas ruas lisboetas mais movimentadas àquela hora avançada da noite, de cabelos ao vento e gabardina esvoaçante. Subindo a calçada, sentia os músculos a latejar devido a ter passado a noite a andar de um lado para o outro, sem destino, apenas à procura de... Nem ela sabia bem o que ansiava encontrar. Apenas se sentia perdida, desolada, sozinha. Sentia o olhar das pessoas, dos turistas, dos jovens universitários que passavam por ela e a assobiavam, gabando o seu porte feminino, a sua silhueta perfeita, o seu longo cabelo ruivo encaracolado, os olhos de um azul-água vivo, a cara de contornos que favoreceriam qualquer uma. Mas Laura não fazia caso dos piropos nem dos assobios. Queria apenas desaparecer... Evaporar no ar frio da noite, como o fumo do cigarro que fumava desde que começara a subir a avenida.
Com o cigarro no fim, atirou-o para a estrada pelo meio dos carros que passavam e virou para uma rua secundária. Estava no Bairro Alto que, àquela hora, estava a dar as últimas. Saltando de rua em rua, passou por um estrangeiro que a começou a seguir, e acelerou o passo. Os saltos não a ajudavam a caminhar rapidamente naquela calçada antiga, e por isso decidiu virar para uma rua sua conhecida e esconder-se num beco cuja entrada passava despercebida. Oculta nas sombras, viu o homem de cabelo muito loiro e olhos azuis passar rapidamente por ela sem sequer se aperceber da sua presença, e desaparecer na escuridão da cidade. Sentou-se no chão e abriu a mala. Com a seringa na mão, começou a rever a sua vida. O som dos gritos da sua mãe assaltou-lhe o pensamento, e tremeu de mágoa. Não fora desejada como filha, não fora amada como familiar, não fora querida como companheira. Órfã de pai desde que nascera, sentira sempre a ausência de uma presença masculina que a protegesse, que a orientasse, que a aconselhasse. Não sentia que tivesse feito alguma vez algo de útil por quem quer que fosse; sentia pelo contrário que a sua existência havia passado despercebida pelo mundo. Homens vis e cruéis haviam-se aproveitado da sua ingenuidade juvenil, e agora ali estava, como uma linda mulher de vinte e seis anos, sentada num beco, viciada em drogas pesadas, desesperada por encontrar uma porta de saída... Só queria ser feliz.

18 de setembro de 2011

A Razão dos Mil Mundos

A saudade é uma pessoa. É um sorriso, um abraço, um beijo. É o prazer de querer, o desejo de ter, a incapacidade de tocar quando se quer. Quando se sente que se deve. E num país muito próximo ao de manteiga vivia, sozinha, uma mulher. Uma linda mulher, de longos cabelos cor de fogo, olhos verde-água, alta e esbelta. Essa mulher vivia sozinha porque afastara todas as pessoas de si. Todos os que a amavam, todos os que a adoravam, foram afastados pela sua maldade e arrogância. Ela sempre tratara mal as pessoas que a rodeavam, e assim eles desapareceram, como uma simples sombra desaparece no meio da escuridão. Numa noite em que fechei os olhos, pronto para uma viagem, aterrei no jardim da sua casa. Uma espécie de insecto, um híbrido de borboleta e pirilampo, pousou no meu ombro por uns segundos e depois levantou vôo muito devagar, voando em direcção à casa. Olhando em volta, pude ver que aquela casa estava isolada de tudo. Era apenas uma pequena habitação no meio de uma vasta e vazia planície. A lua cheia brilhava lá no alto, e reconheci uma coruja amarelada da minha viagem anterior. Sorri e dirigi-me à casa. O insecto estava pousado na janela, de onde vinha uma trémula luz avermelhada. Dei a volta à casa; a porta estava aberta. Entrei e chamei por alguém, mas não obtive resposta. A sala estava decorada com muitos bibelots em cima de várias mesinhas, e ao longo das paredes estavam molduras e mais molduras com fotografias de pessoas que dormiam. Um cheiro a manjerico e salsa vinha das outras divisões, e parecia ser da cozinha que vinha a tal luz. Entrei e vi a mulher deitada no chão. Parecia dormir, como quem merece um descanso depois de um dia intenso de trabalho - não fosse o sangue à sua volta.
Senti perigo, urgência. Senti necessidade de chamar alguém, de pedir ajuda, de salvar aquela mulher. Mas no fundo, sabia que ela já estava morta há muito tempo. Desde a criação desse mundo, que ela estava morta, apesar de caminhar todos os dias nele. A sua alma, corrompida pela dor e ódio, manifestava-se agora à minha frente. O corpo continuava deitado, morto, mas o reflexo da sua existência olhava-me com olhos de
raiva, como um igual.
"- O que queres daqui?" perguntou-me, com a voz impregnada de maldade, enquanto cerrava os punhos.
"- Perceber.", respondi.
Ela olhou para cima e a casa começou a desfazer-se em areia. Tudo se estava a desfazer, os retratos, as paredes, as luzes. Ficava apenas o céu, e o corpo morto, no vazio. Os cabelos do fantasma começaram a brilhar, a ficar transparentes como... vidro.
"- Mataste-me, faz muito tempo. Mataste-me e às minhas irmãs. Mataste-nos a todas apenas por receio do desconhecido, por não nos conheceres. Mataste-me na noite em frente àquela casa importante para ti, e naquele quarto escuro era eu a tua amiga. E morri, desvanecida pelo teu toque, pois no fundo querias que desaparecesse."
"- Não sei do que falas", arrisquei, a medo.
"- Não me mintas. Tenho-te seguido; tenho-me infiltrado em todos os teus sonhos, até nos mais puros. No mundo de manteiga, era eu a alma das cobras. No mundo do miúdo que morreu, era eu quem possuía o corpo do pai. Nas montanhas frias, fui eu quem ordenou aos homens que cortassem a língua da mãe da menina de cabelo azul. Sou eu a origem dos teus sonhos, das tuas histórias, dos teus relatos."
Observei-a.
"- Tudo isto porque te matei?"
A sua pele cintilou e tornou-se transparente, cristalina.
"- Não. Tudo porque não me perguntaste porque te seguia."
"- E por que o fazes?"
A pele começou a estalar.
"- É tarde para fazeres essa pergunta, e é ainda mais tarde para te responder. Saberás a resposta à tua pergunta, um dia. Quando mereceres."

21 de junho de 2011

Regressar - parte 02 - Tomás Depois da Vida

Era como caminhar para trás, morrer. A cada passo, revia muitas coisas, inclusive coisas que ele não conhecera em vida, pelo menos que se lembrasse. Uma casa grande, amarela, com telhado verde e um imenso jardim em frente. Um quadro de uma mulher sem cabeça. Um vestido, preto e prateado, tão comprido que poderia rodear a grande casa amarela com ele. Via a mãe, via o pai, via três crianças iguais a ele, todas por volta dos seis anos, ajoelhadas num pequeno parque de areia, a brincar. Via gatos do tamanho de bicicletas, bicicletas do tamanho de autocarros e autocarros do tamanho de gatos. Via ondas de luz de várias cores a passar através de tudo isto, e de repente sentiu as costas numa parede. Não podia recuar mais. Sentia as pernas muito pesadas, mas caminhou em direcção às crianças e sentou-se de pernas cruzadas à frente delas.
A criança da esquerda era muito mais bonita que as outras. Tinha uma pele que parecia seda, olhos brilhantes e estava muito bem vestida. Era igual a si mesmo fisicamente, mas exibia uma expressão de superioridade que Tomás não conhecia em si mesmo. Essa criança olhou para ele fixamente durante uns segundos, depois levantou-se e foi andar de baloiço.
A criança do meio tinha um aspecto mais familiar. Vestia umas calças de ganga escura vulgares e tinha um casaco preto por cima da camisola azul. Ostentava uma expressão serena, e quando olhou directamente para Tomás, sorriu e disse "olá", como quando uma criança faz amizade com outra. Tomás respondeu e ele perguntou "queres brincar comigo?", ao que Tomás respondeu "não sei". Então, a segunda criança levantou-se, virou as costas e começou a correr ao redor do parque.
A criança da direita pegou na mão de Tomás ainda antes de ele ter tido tempo de olhar para ela. Era um Tomás cinzento, triste, com uma aura negativa à volta dele, e dentro dos seus olhos brilhavam gotas de morte. Disse-lhe "vieste porque eu quis, e vais ficar aqui para sempre comigo porque eu quero". Tomás levantou-se, largou a mão do menino e disse "porquê?", mas não obteve resposta. Ao invés disso, as três crianças juntaram-se em frente a ele e disseram-lhe em coro "precisas ir e voltar para poderes criar algo novo dentro de nós", e tocaram no peito uns dos outros, no lugar do coração. Tomás pestanejou e perguntou "ir onde?"; sentiu formigueiro nos pés. Olhou para baixo e viu que estava a desaparecer, deixando fumo branco onde antes estavam os seus pés, as pernas, o tronco. Olhou em frente, e no lugar das crianças estava uma parede branca. Nessa parede, uma palavra escrita a tinta vermelho-sangue: chocolate.

19 de junho de 2011

Regressar - parte 01 - Tomás

Era uma vez um menino de onze anos, quase doze. Vivia com os pais e era filho único. Moreno como a mãe e com os olhos azuis do pai, Tomás era uma criança muito medrosa. Tinha medo dos cães grandes que eram levados a passear na sua rua pelos vizinhos; tinha medo dos insectos que entravam pela janela do seu quarto e inocentemente passeavam pela divisão; tinha medo do som dos trovões em noites de temporal; tinha medo dos gritos dos pais ao fundo do corredor, no quarto deles. Gritos cheios da raiva do pai e da agonia da mãe. Apesar de tudo isso, tinha mais medo ainda da sua cama.
Era uma cama grande, antiga, onde podiam dormir três pessoas adultas, e ainda assim sobraria espaço. Era dura e fria, e Tomás não gostava dela. Rangia sempre que ele se movia nem que fosse um milímetro. Até mesmo se respirasse fundo, por vezes estalava. Mas o seu verdadeiro medo motivava-se pelo que estava guardado debaixo dela. Sabia que havia algo debaixo da cama, pois sentia que o chamava, que lhe pedia que espreitasse. Mas todas as noites Tomás resistia a esse chamamento, pois todas as noites os gritos de raiva e os gemidos de agonia se sobrepunham aos rangidos da cama grande e fria. Durante o dia, vindo da escola e ainda com o brilho do pôr-do-sol a espreitar pela janela, olhava para debaixo dela mas a única coisa que via por vezes era uma fina camada de pó, nada mais.
A mãe limpava o seu quarto de três em três dias, mas ainda assim a sua cama estava sempre feita quando regressava a casa, e a roupa do dia seguinte pronta a vestir na poltrona num canto do quarto. A estante ao lado da poltrona enchia-se com os muitos livros que Tomás já lera, mas ainda lhe faltava completar duas prateleiras. Havia sempre um cheiro suave a chocolate pela casa: o pai de Tomás exigia ter um bolo de chocolate diariamente para comer sozinho quando voltasse do emprego. A mãe, doméstica, devia sempre ter a casa imaculada, embora o pai de Tomás lhe desse permissão para não ter de limpar o quarto do filho todos os dias, pois era a única divisão onde ele não precisava de entrar.
Uma noite, no início de uma grande tempestade, a mãe de Tomás teve de correr para a rua a fim de apanhar a roupa estendida no quintal. Saiu e voltou em menos de dois minutos, mas voltou encharcada e com a roupa uma sopa. Pôs rapidamente os trapos molhados num canto e apressou-se a despir o vestido que pingava e as botas lamacentas. Em camisa interior, pegou na esfregona e lavou o chão da marquise, levando em seguida toda a roupa para a máquina de secar a roupa. Ouvira uma vez a mãe dizer para si mesma que detestava o desperdício, e por isso preferia usar a luz e o calor natural para secar a roupa, e assim mantinha o suave cheiro a flores do detergente e do amaciador.
Lavado o chão e seca a roupa, a mãe de Tomás tratou de a dobrar muito bem dobradinha e a pôr no cesto para passar na manhã seguinte. Naquele momento, em que Tomás a observava da ombreira da porta, a porta da rua bateu com força. A mãe correu para ele, deu-lhe um rápido abraço e Tomás correu para o seu quarto. Fazia já este ritual há muito tempo, quase desde que aprendera a andar, pois sabia que a sua presença irritava ainda mais o seu pai. Assim que fechou a porta do quarto, começou a ouvir os gritos do pai e as respostas baixas da mãe, e quanto mais ele se exaltava mais a tempestade se tornava agreste e menos ele ouvia as respostas da mãe. Sentou-se na cama, e sentiu um aperto forte no peito. Parecia ter espinhos de rosa a espetar-se na carne e a escorregar até ao seu coração, mas a barragem de sentimentos que construíra nos últimos anos ensinara-o a conter as lágrimas, e engoliu em seco, quase sentindo os espinhos na garganta. Ouvia agora um cão ladrar, abafado pelo ribombar dos trovões, e o seu pai a gritar, intervalado pelo choro profundo da sua mãe. Deitou-se de barriga para baixo e tapou a cabeça com a almofada.
Silêncio. Apenas um muito longínquo roncar, que sabia ser da trovoada, ele ouvia. Sentia a cama fria na sua cara, e sentiu medo. Os lençóis pareciam acariciar a sua cara, mas ao mesmo tempo sentia os rangidos da madeira. Lentamente, era como se mergulhasse no próprio colchão, e era como se estivesse a mergulhar em água fria, gelada, e se estivesse a afogar. Demorou uns segundos até se aperceber que estava alguém (ou alguma coisa) a empurrar a almofada, sufocando-o. Começou a espernear, a tentar gritar, mas era como se estivesse dentro de água: não ouvia nada, não sentia nada, não via nada. A barragem das lágrimas desmoronou-se, e levou  a vida de Tomás com ela.

18 de junho de 2011

O que sei eu?

Eu aprendi que perdoar exige muita prática, pois condenar é fácil. Aprendi que há muita gente que gosta de mim, mas que não consegue mostrar isso seja de que maneira for. Aprendi que gostar de alguém pode ser um dom e uma maldição, exactamente ao mesmo tempo, como quando a nossa alma se sincroniza com a nossa música preferida, ou quando um bebé sorri para a sua mãe e esta sente uma alegria avassaladora dentro do seu coração. Aprendi que chorar pode ser, por vezes, a única coisa que se pode fazer para sentir alívio; de nada valerá espernear, gritar, bater em alguém, partir alguma coisa, vaguear sem destino. Apenas o simples acto de chorar libertará toda a dor e mágoa. Aprendi que os amigos são, literalmente, a benção mais valiosa que um qualquer deus, ou Deus, ou força da natureza, ou energias espirituais, ou o que quer que cada um chame ao que acredita, nos pode dar. Aprendi que estarão sempre lá para mim, quer seja boa ou má pessoa, quer os magoe sem intenção ou seja maldoso por vezes. Aprendi tudo isto e continuo a aprender, e embora saiba muito, no fundo analisando tudo, não sei quase nada. E estou ansioso por aprender mais.

31 de maio de 2011

No Mundo Cor de Manteiga

Não dormi. Passeei, vagueei, perdi-me numa realidade paralela em que o mundo estava virado do avesso. Observei, embasbacado, o que a chuva revelava nas pessoas. Ganância, inveja, ciúme, podridão. Uma sombra que resistia mesmo sem haver luz possível que a fizesse nascer. Desilusão que me consumiu, deu lugar a uma tristeza profunda e a um 'é pena...', dito com mágoa e dor. Decidi refugiar-me no meu próprio mundo, envolvido em três diferentes atmosferas, e fui parar ao continente mais antigo.
Sentei-me de olhos fechados. Não tinha coragem de os abrir, mas o cheiro a limão aliciava-me a ver o que me rodeava, e assim que os abri, sorri. Um mundo cor de manteiga dava-me as boas vindas. Borboletas de neve, grandes como a palma da minha mão, voavam por ali, pousando de rosa amarela em rosa amarela, e nos limoeiros flutuavam grandes limões, maiores que bolas de ténis. Esquilos dourados e algumas pombas castanhas estavam numa clareira ali perto, onde um imenso labirinto feito de sebes de jardim se erguia pelo menos uns dois metros acima de mim. Dele, brotavam pequenas flores, e reparei em duas grandes cobras azuis que serpenteavam à entrada. Enquanto caminhava, sentia-me cada vez mais feliz. Uma felicidade como há muito não sentia; um auge de contentamento, de alegria. Sentia-me eufórico, quase como que prestes a rebentar em mil luzes! O céu, azul claro com tons de cor de pêssego, brilhava intensamente, e parecia haver cada vez mais borboletas de neve a voar por ali. Quando cheguei bastante perto da entrada, as serpentes ergueram metade do corpo e comecei a ouvir uma música de fundo. Instrumental, a roçar o clássico; uma música sem nome nem identidade escondida na minha mente. E a serpente da esquerda falou-me. Perguntou-me o nome e ao que vinha, e eu disse o meu nome e não disse mais nada. A serpente esperou, e o tempo passou, e ficou de noite. A lua cheia brilhava lá no alto, as estrelas piscavam e havia corujas e morcegos a voar de quando em vez. Passou toda a noite, e as serpentes esperaram enquanto eu pensava na segunda parte da resposta. Amanheceu e eu respondi "De facto, não sei.", e as serpentes responderam juntas "A resposta está correcta." e desfizeram-se em areia azul. Entrei no labirinto, e um cheiro intenso a naftalina acariciou-me o nariz. Virei à esquerda, à direita, à direita outra vez, fui em frente e encontrei uma escadaria feita de cordas de nylon preto. Subi as escadas e uma recordação esperava-me, de pernas cruzadas, no topo da sebe mais alta. Ali me sentei com ela, a rir, enquanto as borboletas de neve se transformavam em vidro, as corujas caçavam serpentes azuis, os esquilos lutavam com as pombas e eu começava a cair, muito devagar, até ao sítio onde adormecera.

26 de maio de 2011

A Menina de Cabelo Azul

No meio das montanhas mais longínquas, onde sempre fazia frio, vivia uma menina com os seus pais. Essa menina nascera com o cabelo azul aos caracóis e olhos da cor do fogo, uma mistura de vermelho e cor-de-laranja. Chamava-se Yara, que na tradição indígena significa "mãe da água".
Yara era uma menina muito sorridente. Era feliz, pois o seu pai fazia a sua mãe sorrir, e ela sentia um calor no peito quando a sua mãe sorria. A sua mãe não falava, mas podia ouvir, pois olhava quando Yara chamava. Com um simples olhar, Yara percebia o que a mãe precisava e trazia-lhe, pois além de não poder falar, não podia andar também. O seu pai explicara-lhe que um dia, há muito, muito tempo, caçadores em busca de algo muito raro haviam atacado a aldeia onde eles viviam pacificamente com os restantes membros da tribo, matando vários dos seus membros. Um deles fizera um grande mal à mãe de Yara; um mal que ela não podia compreender, mas que sentia ser algo terrível. Depois desse mal, à mãe de Yara fora cortada a língua. Estivera meses em estado muito grave, mas o ancião da tribo, que conseguira sobreviver, viera do seu esconderijo e preparara uma pomada de plantas e sementes que aplicou no interior da boca da mãe de Yara. No dia seguinte, as dores haviam passado, a ferida estava completamente cicatrizada e ela já conseguia comer decentemente, mas ficara permanentemente incapacitada de falar. Por não poder falar nem gritar, não pode pedir socorro quando uma tarde, já Yara era nascida, ela voltava do rio e fora atacada por uma hiena. O animal, sedento de sangue e comida, atacou-a na barriga e rasgou-lhe as costas, tornando-a assim incapaz de andar também.
E foi assim que Yara aprendeu que os homens podiam ser bons, como o seu pai, que fazia sorrir a sua mãe todos os dias, e como o velho ancião, que curara os seus ferimentos, e podiam ser maus como os caçadores que haviam trazido tamanha má sorte à sua tribo em nome da sua ganância, e que haviam feito tanto mal à sua mãe.
Por ser uma menina com aparência diferente do vulgar, os habitantes das aldeias vizinhas olhavam-na de lado quando ela ia com o pai. Não havia ninguém que não desviasse o olhar quando ela se aproximava, mas todos cochichavam quando se encontravam já longe. Todos, menos uma menina de cabelos da cor do sol. Ouvira uma manhã uma senhora de certa idade chamá-la de Helga. Helga devia ter a sua idade, ou talvez um ano mais velha, e vestia roupas de boa qualidade. Tinha longos cabelos lisos e dourados, as bochechas rosadas e uns olhos de um azul celeste magnífico. Chamavam-lhe a "Princesa dos Deuses", pois tinha os traços de uma figura divina, e dizia-se que conseguia prever o futuro. Sabia quando se aproximava uma tempestade de gelo, um temporal, animais selvagens esfomeados, ventos fortes e vendedores ambulantes. Avisava as pessoas para que tomassem as devidas precauções em relação às suas colheitas quando pressentia que estas iriam ser destruídas, e sabia quando alguém começava a ficar doente sem que a própria pessoa se apercebesse da doença.
Helga era orfã de pai, e a sua mãe era dona de um bar de convívio de uma das aldeias. O 'Olho Divino' era um bar muito apreciado por todos os habitantes daquela região, pois a cerveja era da melhor qualidade e a preços não muito elevados.
Era, então, a única que não cochichava nem apontava o dedo. Helga olhava para Yara com curiosidade, uma certa ingenuidade até. Sorria suavemente quando cruzava o olhar com o de Yara, mas esta, não habituada ao contacto visual com outras pessoas que não fossem os seus pais, não sabiam como retribuir. Um dia, resolveu sorrir de volta, e apercebeu-se que não sabia como o fazer sem ver primeiro a sua mãe sorrir.

11 de maio de 2011

Think first.

Em alguma parte do mundo, neste preciso momento, alguém morreu.
E alguém nasceu. Dito isto...


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7 de maio de 2011

Espelho meu.

Uma mistura de aromas acordou-me.
Abri bem os olhos e olhei em volta. Um temporal rebentava lá fora, e pelas persianas entrava uma tímida e cinzenta claridade, acompanhada do som da chuva a atirar-se contra o chão de calçada. Ainda enrolado nos cobertores, virei-me para o outro lado e espreguicei-me; uma sensação de conforto apoderou-se de mim e senti-me adormecer novamente.
Uma explosão vinda da rua despertou-me de vez. O temporal não estava de brincadeira, e aquele trovão parecia ter rebentado mesmo por cima de mim. Ignorando-o, olho em volta para o meu quarto.
Nada ali dizia quem sou. Nem os livros, nem os perfumes, nem os cd's de música, nem os filmes. Nada. Nada me diferenciava de um qualquer outro jovem de vinte e dois anos. Tinha amigos, tinha família. Tinha perfis em redes sociais, telemóvel, computador. Só não tinha o amor, o que me deixava ainda mais idêntico aos outros. Vivia num século em que a crise se abatia sobre o País, em que o emprego e a escola eram quase um luxo, em que o normal era não ser diferente. Era ser igual a toda a gente. Era ser comum, vulgar, um ser humano medíocre visto com olhos de indiferença.
Mas não. Algo em mim me distinguia dos outros. Creio que alguém já descobriu o quê, mas eu não. Vejo-me ao espelho e vejo também mil outras caras, mil outras vidas, ao todo mil e um seres perdidos numa era de medos e ignorância, onde vale menos uma boa atitude que um golpe de ganância.
Queria partir o espelho... Mas sempre me disseram que dava azar.

30 de março de 2011

O Último Fluxo

Esta bolha de sentimentos
Que cresce de dia para dia
Vigorosa, enche-se de agonia
De saudades, de arrependimento
E treme, com descontento
Pois nela reside o mistério que move o Mundo.
O segredo da Vida.
O porquê de todas as coisas.
E a bolha revitaliza, e aumenta
Até que o meu peito não mais aguenta
E uma brecha se abre no lugar do coração.
Sem dor.
E ali fica, aberta, para que o segredo escorra e se liberte
Para que caia na Terra e por ela seja absorvido
Para que se esconda e não mais possa ser atingido
Pelas mentiras, pelos segredos, pela ganância
De quem anseia por poder, por controlo
Oh!, mas que mundo tolo, este
Onde o segredo se decidiu esconder
Onde tantos o podem encontrar
Ainda que o não possam ver.
É esguio, e sombrio
Este segredo maldito, que abençoa
Que nos beneficia, embora doa
Nos piores momentos das nossas vidas
Nas alturas de desespero e solidão
Nas noites, onde caminha o mortal ladrão
Aquele que nos leva tudo.
Menos o segredo do mundo.
Esse esconde-se em nós, num fluxo sem fundo.

16 de janeiro de 2011

Chapter VI - "A Shadow With Purple Eyes"

Chegaram a uma clareira. O que quer que fosse que os estava a perseguir parecia ter parado no momento em que haviam saído da floresta, e assim que se apercebeu disso, Diana largou a mão de Mário e observou o lugar onde estavam.
A clareira era extensa e coberta da mais fresca relva. O luar banhava toda a extensão daquele lugar, que parecia estender-se por quilómetros, e aqui e ali podiam ver-se pequenos arbustos de onde espreitavam pequenos coelhos, e no céu estrelado passeavam corujas brancas como a neve e mochos negros como a noite, piando e buscando presas. Diana estava maravilhada com aquele cenário.
- Então? Gostas deste sítio? Venho cá noite sim, noite não, fazer-lhes companhia.
Diana olhou para ele. Estava agachado perto de um arbusto maior e mais amarelado que os outros. A cheirar a sua mão estavam duas pequenas raposas douradas com as pontas das orelhas brancas. Pareciam ser irmãs e muito chegadas. Diana aproximou-se mas, assim que o fez, elas começaram a brilhar ligeiramente e desapareceram no minuto seguinte.
- Que aconteceu? Fiz algo de errado?
Mário sorriu para ela.
- É claro que não. Mas elas são muito tímidas, e é a primeira vez que te vêm... Desculpa, mas como te chamas mesmo?
- Isso é importante?
-Bom, dado que te salvei a vida, acho que me podias dizer pelo menos o teu nome...
- ... Diana. E agora é a minha vez de te perguntar. Por que é que ages como se fosse a coisa mais normal do mundo para ti, estar aqui? Nunca vi outra pessoa neste lugar... Nunca falei com os animais nem corri tão depressa. Diz-me de uma vez por todas quem és tu.
Mário estava estupefacto. As outras pessoas que ali encontrara nunca lhe haviam feito aquela pergunta, e ele nunca demonstrara interesse em saber. Só sabia que podia sonhar e fazer coisas acontecer nos seus sonhos que se reflectiam mais tarde na vida real. E foi isso mesmo que começou por lhe contar.
-Então... Tu queres dizer que há mais pessoas como nós? Normais, mas que sonham? Como nós?! É que para mim isto não é um sonho qualquer. Eu acordo cansada se tiver corrido muito, acordo dorida se tiver caído, alegre se o que sonhei foi bom e triste se foi mau. Não é algo que interprete como sendo normal, dado que certas coisas acabam por acontecer ou influenciar certas situações a acontecer.
- Eu não sei mais que tu. Mas sei que há mais pessoas, sim, e não são poucas. Há um ano atrás, sonhei que uma pessoa iria trazer outras. Nunca vi isso acontecer, mas umas noites após o meu sonho, o sítio por onde costumo entrar tinha dezenas de pegadas humanas, e nenhuma das leoas me soube dizer o que acontecera.
De repente, os arbustos começaram a tremer. Todos eles, por toda a clareira, agitavam-se freneticamente, até que um deles pegou fogo. Todos os outros se incendiaram, tornando assim a clareira num jardim de fogueiras. Os animais lá escondidos desapareceram num monte de poeira branca, as corujas voavam para longe, e alguns metros de Diana e Mário começou a aparecer uma sombra de forma humana. Diana pressentiu perigo e desejou acordar... Aquela sobra tinha apenas dois rasgos na face, e dentro desses rasgos estavam dois olhos de um roxo profundo que a fixavam. Diana olhou em volta, e a cerca de 50 metros começou a aparecer o grande rochedo por onde entrava sempre. O grande leopardo branco assanhou-se e rosnou, como que a avisá-la. Diana correu, e agarrando na mão de Mário, passou pelo leopardo e atravessou a rocha...
Acordou.

7 de janeiro de 2011

Chapter V - "Runaway Of Despair"

"- Quem és tu?"
Diana abriu os olhos, a custo. Um rapaz, provavelmente da sua idade e completamente vestido de branco, segurava-a nos braços. Observava-a com os seus olhos azuis brilhantes e parecia preocupado.
- Quem és tu?, voltou ela a perguntar. Sentia as pernas, dormentes, a voltarem a ter sensibilidade, estava ensopada e tremia de frio.
- Mário. Estás bem?
O facto de não perguntar o seu nome e mostrar preocupação pelo seu estado pareceu transmitir-lhe uma sensação quente. Ainda assim, começou a afastá-lo e levantou-se.
- Sim. Que aconteceu?
- Não faço a menor ideia. Só sei que tinha de ajudar-te.
Diana parou de repente. Estava tão desconcertada que só agora se apercebera: estava ali alguém com ela!!! Naquele lugar, nunca tinha visto nenhum outro humano. Mas ele estava ali!!! Olhou para ele atentamente de cima a baixo.
- Que se passa?
- Como vieste aqui parar? Quem és e como estás aqui? Responde-me!
Mário olhou-a nos olhos. Via admiração, determinação, ferocidade. Sorriu.
- Não sei do que falas. Sempre cá vim e acho que tenho tanto direito a cá estar quanto tu... Não devias descansar um pouco?
- Não desvies o assunto! Eu sou a única... Quero dizer... Acho que sou a única... Mas eu nunca vi outras pessoas!!
- Não?! Bom, e dizem os meus irmãos que eu sou anti-social...
Diana olhou para ele. Estava furiosa por não obter respostas... Mas começou a rir-se. Descontroladamente. Ele imitou-a. As leoas observavam os dois humanos à gargalhada enquanto eles se agarravam às barrigas. Olharam uma para a outra e sorriram ligeiramente.
Diana parou de rir e levantou-se subitamente. Sentiu-se observada. Olhou em volta. As leoas rosnaram para o vazio e fugiram.
Mário levantou-se também. Aquela sensação voltara. Algo o seguira e ele sabia que precisavam de fugir o quanto antes. Deu a mão a Diana.
- Que estás a fazer?
- A salvar-te. Outra vez.
Diana sentiu uma sensação estranha a percorrê-la quando ele lhe agarrou a mão. Como se estivesse a mergulhar o braço lentamente em água gelada, começou a sentir uma enorme vontade de correr, de fugir, o mais rápido possível. E foi o que fez.

6 de janeiro de 2011

Chapter IV - "Savior Or Servant?"

Mário dava voltas e mais voltas na cama.
Estava numa planície. O vento forte e quente quase o sufocava; suava em bico e tremia, não sabia bem porquê, mas também não importava. Sentia que devia correr em direcção ao vale; havia algo a fazer. Começou a correr, sem nunca olhar para trás, embora tivesse a sensação de estar a ser perseguido. Estar ali fazia-o sentir-se rápido. Muito rápido. Correu durante uns minutos e depressa alcançou o objectivo. Parou e olhou em volta. Leoas e lobos andavam por ali, banhando-se no luar eterno daquela planície. A esfera amarelada brilhava lá no alto, rodeada por milhares de pequenos pontos brilhantes, e era comum ver viajar naquele céu estrelas cadentes. Voltou a sua atenção para o bosque que se erguia e parecia subir pelo outro lado do vale até ao horizonte. Mais uma vez, um apelo intuitivo. Começou a andar lentamente, parando mesmo antes de penetrar o bosque para fazer uma vénia a três leoas com o dobro do tamanho normal que, há muito tempo atrás, lhe disseram mentalmente que deveria sempre mostrar respeito por aquele lugar ou seria comido vivo. Após o olhar permissivo das três, entrou no bosque e recomeçou a correr. Sentia pressa, ansiedade. Corria cada vez mais rápido, desviando-se das árvores com agilidade e destreza. Estava a chegar; sentia-o. E a sua velocidade era tal que quase se sentia voar... Talvez mais um pouco... E de repente parou. Ali estava, uma grande quantidade de nevoeiro branco. Olhou para o chão e viu pequenas borboletas cor de prata. Mortas. À volta da neblina, duas leoas, uma de cada lado, aproximaram-se dele com os olhos a faiscar. Pôs rapidamente um joelho no chão, como se estivesse na presença de uma rainha, e esperou. A longa cauda de uma delas tocou-lhe na testa, e "falou-lhe".
"- Deves salvar a pessoa que está no fundo desta lagoa. Não deves temer que te aconteça o que está a acontecer com ela: estarás protegido pelas nossas almas. Mas se não a salvares, o mesmo destino se abaterá sobre ti, e nem mesmo a nossa protecção te salvará.".
Mário abriu os olhos. Levantou-se, respirou fundo e saltou.

A água estava quente. Parecia ferver, mas não queimava. Começou a nadar cada vez mais fundo até que a água se começou a tornar vermelha. Vislumbrou algo no fundo; alguém. Foi ao seu encontro, e algas negras apareceram à sua volta. Não lhe tocaram, mas teve a sensação que estavam à espera de algo para o agarrar. Quando estava a aproximar-se, outra pessoa apareceu no fundo... Mas esta era diferente. Estava nua, pálida, morta. A rapariga que estava presa começou a parar de se debater, e a outra a erguer os braços. E de repente ele percebeu. Alcançou-as e puxou a jovem emaranhada nas algas pretas. Nadou o mais que pode, mas era muito peso. Imaginou-se a correr pelo bosque, a fugir de algo ou alguém.
Atingiu a superfície. A rapariga estava inconsciente e ele estava exausto. Puxou-a para fora e tentou reanimá-la. Nada. Insistiu durante dez minutos, observado pelas duas leoas, até que ela começou a espirrar água e a tremer de frio. Olhou para cima a agradecer aos céus, mas não via nada através daquela neblina. Apenas uma coisa importava: estavam salvos.

Chapter III - "Lake Butterfly"

A falésia subia metros e mais metros, quase a arranhar o céu estrelado. O 'Vértice', como Diana lhe chamava, era o seu sítio preferido naquele mundo. Era, aliás, a porta de entrada para aquele mundo, portanto nunca deixava de passar por lá, mesmo que não quisesse. Mas o que era mais especial acerca daquele sítio era ser uma falésia habitada, e apenas por felinos selvagens. Pumas, chitas, tigres, leões (por algum motivo as leoas mantinham a distância daquele lugar) e um único leopardo, completamente branco. Há muito que os observava, e por isso Diana percebera que todos eles agiam como uma matilha de lobos, em que o leopardo branco ocupava o lugar de incontestável líder. Com olhos prateados e quase dois metros de comprimento, ostentava um ar feroz, parecendo sempre pronto a atacar. Mas nunca atacara Diana. Não se aproximava, observando-a de longe, atentamente. De início, metia medo, mas depois de anos a habituar-se, Diana já por ali passava como se passeasse num jardim.
Naquela noite, lá estavam eles. Dois leões guardavam a fissura na rocha onde o leopardo descansava, e um tigre podia ser visto a rondar uma área mais rochosa, um pouco afastada dali. Diana saiu de dentro da pedra de cerca de dois metros de altura que ligava os dois mundos, e andou em direção à floresta que se erguia a alguns metros dali. Não havia praia, nem areia, nem sítios por onde passear. Era apenas uma grande rocha, rodeada pelo horizonte e pela relva que a ligava à floresta. Diana sorriu aos leões e avançou para as imponentes árvores, que pareciam chamá-la. Centenas de pinheiros e eucaliptos erguiam-se muito alto, mas havia ali um trilho na terra, talvez feito por ela mesma com o passar dos anos. Percorreu-o, como fazia todas as noites, até chegar ao lago. Sempre que o visitava, estava envolto em neblina intensa e um forte cheiro a terra molhada numa tarde de verão. A brisa que ali passava parecia não ter efeito na névoa, embora as árvores, e os cabelos de Diana dançassem ao som daquela música muda e fria. Para além das leoas, que pareciam viver numa clareira ali perto, ela parecia ser o único ser vivo a caminhar naquele chão, dado que os restantes habitantes eram aves noturnas.
Chegara. A névoa branca e brilhante lá estava, a pairar como se fosse uma nuvem, e ao seu redor as borboletas de prata voavam freneticamente, alertanto-se a si mesmas da presença de Diana. Ignorando-as, Diana mergulhou no lago, ansiosa para saber o que iria ver naquela noite. Todas as noites via algo diferente, algo fantástico, revelador... E então algo estranho aconteceu. A água, apesar de temperatura moderada, começou a fervilhar furiosamente; bolhas de ar vinham rapidamente rebentar à superfície, e algas negras apareceram no meio da água, enrolando-se aos braços, pernas e pescoço de Diana e começando a apertar. A água ficou vermelha, e das profundezas do lago ergueu-se um corpo de rapariga. Incólume, pálido como um tecido banhado em lixívia, foi subindo até estar de frente para Diana, e então abriu os olhos e deles saíram lágrimas negras. A sua expressão era de pura tristeza e parecia pedir ajuda, mas Diana não a podia ajudar: estava a afogar-se, as algas apertavam-na cada vez mais e o ar estava a acabar. Começou a perder os sentidos. Apesar de estar a morrer, pensou ela, não pôde deixar de reparar numa mancha branca que acabara de surgir ao lado daquela rapariga. Talvez a morte vestisse a cor da pureza, apesar da escuridão do seu destino...

5 de janeiro de 2011

Chapter II - "Sleeping Stars Bring Wonderful Beasts"

Diana sempre gostara de observar as estrelas antes de ir dormir, mas era já a incontável noite consecutiva em que não o fazia. Trabalho, cansaço, necessidade de se manter ocupada para não começar a pensar. Havia lido num qualquer livro de auto-ajuda da sua irmã mais nova que "para manter um corpo são deve encontrar-se o equilíbrio emocional entre a alma e a mente". Por norma não acreditava muito nas coisas que os escritores diziam acerca disso, mas desta vez isso tinha feito algum sentido. Então, seguiu o único passo para que se sentia preparada: dar prioridade ao corpo mantendo-o ocupado, enquanto deixava em stand-by a alma e a parte da mente que imaginava as coisas. O seu maior obstáculo acabava por ser à noite, quando dormia. Enquanto o corpo descansava, a alma e a mente deliciavam-se com a perspectiva de liberdade que se lhes abria com a chegada da irmã mais velha do Dia. No caso de Diana, ambas mente e alma voavam para lugares longínquos e perigosos, onde nunca uma alma se devia aventurar. Lugares esses, repletos de medos, seres, paixões que aliciavam as almas mais especiais a visitar os seus jardins proibidos...
Enquanto criança, sonhar sempre fora algo que ansiava todos os dias. Assim que a manhã chegava, começava imediatamente a pensar com o que será que iria sonhar na noite seguinte; era um ciclo vicioso de sonhos e magia que lhe preenchia as noites e lhe alimentava a mente, e por isso Diana tivera uma infância feliz, embora solitária, já que mais nenhuma criança era como ela. As outras meninas raramente se lembravam do que sonhavam, se sonhavam sequer, e à medida que foram passando os lentos anos de infância Diana encontrou-se rodeada de conhecidos e colegas de escola, mas nunca de verdadeiros amigos. Não podia partilhar os seus sonhos com ninguém sem se sentir absurda, e muito menos esperar que acreditassem nela.
E embora a morte da jovem rapariga de cabelos negros tivesse sido terrível, algo naquela jovem e naquela tarde fez com que se tornasse mais lúcida sobre tudo. Todos os seus sonhos a partir da noite que se seguiu ao suicídio se haviam tornado mais claros, mais reais. Mas, também, um pouco mais perigosos. E principalmente nesta noite, em que Diana conseguiu ir observar as estrelas mais uma vez antes de ir dormir, estava-lhe reservada uma visita muito especial...
"Welcome, my dear Leopard."