30 de março de 2011

O Último Fluxo

Esta bolha de sentimentos
Que cresce de dia para dia
Vigorosa, enche-se de agonia
De saudades, de arrependimento
E treme, com descontento
Pois nela reside o mistério que move o Mundo.
O segredo da Vida.
O porquê de todas as coisas.
E a bolha revitaliza, e aumenta
Até que o meu peito não mais aguenta
E uma brecha se abre no lugar do coração.
Sem dor.
E ali fica, aberta, para que o segredo escorra e se liberte
Para que caia na Terra e por ela seja absorvido
Para que se esconda e não mais possa ser atingido
Pelas mentiras, pelos segredos, pela ganância
De quem anseia por poder, por controlo
Oh!, mas que mundo tolo, este
Onde o segredo se decidiu esconder
Onde tantos o podem encontrar
Ainda que o não possam ver.
É esguio, e sombrio
Este segredo maldito, que abençoa
Que nos beneficia, embora doa
Nos piores momentos das nossas vidas
Nas alturas de desespero e solidão
Nas noites, onde caminha o mortal ladrão
Aquele que nos leva tudo.
Menos o segredo do mundo.
Esse esconde-se em nós, num fluxo sem fundo.

16 de janeiro de 2011

Chapter VI - "A Shadow With Purple Eyes"

Chegaram a uma clareira. O que quer que fosse que os estava a perseguir parecia ter parado no momento em que haviam saído da floresta, e assim que se apercebeu disso, Diana largou a mão de Mário e observou o lugar onde estavam.
A clareira era extensa e coberta da mais fresca relva. O luar banhava toda a extensão daquele lugar, que parecia estender-se por quilómetros, e aqui e ali podiam ver-se pequenos arbustos de onde espreitavam pequenos coelhos, e no céu estrelado passeavam corujas brancas como a neve e mochos negros como a noite, piando e buscando presas. Diana estava maravilhada com aquele cenário.
- Então? Gostas deste sítio? Venho cá noite sim, noite não, fazer-lhes companhia.
Diana olhou para ele. Estava agachado perto de um arbusto maior e mais amarelado que os outros. A cheirar a sua mão estavam duas pequenas raposas douradas com as pontas das orelhas brancas. Pareciam ser irmãs e muito chegadas. Diana aproximou-se mas, assim que o fez, elas começaram a brilhar ligeiramente e desapareceram no minuto seguinte.
- Que aconteceu? Fiz algo de errado?
Mário sorriu para ela.
- É claro que não. Mas elas são muito tímidas, e é a primeira vez que te vêm... Desculpa, mas como te chamas mesmo?
- Isso é importante?
-Bom, dado que te salvei a vida, acho que me podias dizer pelo menos o teu nome...
- ... Diana. E agora é a minha vez de te perguntar. Por que é que ages como se fosse a coisa mais normal do mundo para ti, estar aqui? Nunca vi outra pessoa neste lugar... Nunca falei com os animais nem corri tão depressa. Diz-me de uma vez por todas quem és tu.
Mário estava estupefacto. As outras pessoas que ali encontrara nunca lhe haviam feito aquela pergunta, e ele nunca demonstrara interesse em saber. Só sabia que podia sonhar e fazer coisas acontecer nos seus sonhos que se reflectiam mais tarde na vida real. E foi isso mesmo que começou por lhe contar.
-Então... Tu queres dizer que há mais pessoas como nós? Normais, mas que sonham? Como nós?! É que para mim isto não é um sonho qualquer. Eu acordo cansada se tiver corrido muito, acordo dorida se tiver caído, alegre se o que sonhei foi bom e triste se foi mau. Não é algo que interprete como sendo normal, dado que certas coisas acabam por acontecer ou influenciar certas situações a acontecer.
- Eu não sei mais que tu. Mas sei que há mais pessoas, sim, e não são poucas. Há um ano atrás, sonhei que uma pessoa iria trazer outras. Nunca vi isso acontecer, mas umas noites após o meu sonho, o sítio por onde costumo entrar tinha dezenas de pegadas humanas, e nenhuma das leoas me soube dizer o que acontecera.
De repente, os arbustos começaram a tremer. Todos eles, por toda a clareira, agitavam-se freneticamente, até que um deles pegou fogo. Todos os outros se incendiaram, tornando assim a clareira num jardim de fogueiras. Os animais lá escondidos desapareceram num monte de poeira branca, as corujas voavam para longe, e alguns metros de Diana e Mário começou a aparecer uma sombra de forma humana. Diana pressentiu perigo e desejou acordar... Aquela sobra tinha apenas dois rasgos na face, e dentro desses rasgos estavam dois olhos de um roxo profundo que a fixavam. Diana olhou em volta, e a cerca de 50 metros começou a aparecer o grande rochedo por onde entrava sempre. O grande leopardo branco assanhou-se e rosnou, como que a avisá-la. Diana correu, e agarrando na mão de Mário, passou pelo leopardo e atravessou a rocha...
Acordou.

7 de janeiro de 2011

Chapter V - "Runaway Of Despair"

"- Quem és tu?"
Diana abriu os olhos, a custo. Um rapaz, provavelmente da sua idade e completamente vestido de branco, segurava-a nos braços. Observava-a com os seus olhos azuis brilhantes e parecia preocupado.
- Quem és tu?, voltou ela a perguntar. Sentia as pernas, dormentes, a voltarem a ter sensibilidade, estava ensopada e tremia de frio.
- Mário. Estás bem?
O facto de não perguntar o seu nome e mostrar preocupação pelo seu estado pareceu transmitir-lhe uma sensação quente. Ainda assim, começou a afastá-lo e levantou-se.
- Sim. Que aconteceu?
- Não faço a menor ideia. Só sei que tinha de ajudar-te.
Diana parou de repente. Estava tão desconcertada que só agora se apercebera: estava ali alguém com ela!!! Naquele lugar, nunca tinha visto nenhum outro humano. Mas ele estava ali!!! Olhou para ele atentamente de cima a baixo.
- Que se passa?
- Como vieste aqui parar? Quem és e como estás aqui? Responde-me!
Mário olhou-a nos olhos. Via admiração, determinação, ferocidade. Sorriu.
- Não sei do que falas. Sempre cá vim e acho que tenho tanto direito a cá estar quanto tu... Não devias descansar um pouco?
- Não desvies o assunto! Eu sou a única... Quero dizer... Acho que sou a única... Mas eu nunca vi outras pessoas!!
- Não?! Bom, e dizem os meus irmãos que eu sou anti-social...
Diana olhou para ele. Estava furiosa por não obter respostas... Mas começou a rir-se. Descontroladamente. Ele imitou-a. As leoas observavam os dois humanos à gargalhada enquanto eles se agarravam às barrigas. Olharam uma para a outra e sorriram ligeiramente.
Diana parou de rir e levantou-se subitamente. Sentiu-se observada. Olhou em volta. As leoas rosnaram para o vazio e fugiram.
Mário levantou-se também. Aquela sensação voltara. Algo o seguira e ele sabia que precisavam de fugir o quanto antes. Deu a mão a Diana.
- Que estás a fazer?
- A salvar-te. Outra vez.
Diana sentiu uma sensação estranha a percorrê-la quando ele lhe agarrou a mão. Como se estivesse a mergulhar o braço lentamente em água gelada, começou a sentir uma enorme vontade de correr, de fugir, o mais rápido possível. E foi o que fez.