13 de dezembro de 2010

Move on?

Entrei na sala. Estava escuro, como sempre. E frio, muito frio, como se o gelo me corresse nas veias. As lembranças do mundo dos sonhos estavam mortas, enterradas naquele quarto havia muito tempo, e com elas estavam também os restos mortais das minhas personagens. Todos eles, em estado demasiado decomposto para serem reconhecidos, estavam sob os meus pés a pedirem-me o dom da ressurreição, mas eu não lhes dei importância. Dirigi-me então à única janela da divisão e olhei lá para fora. Um nevoeiro perigoso esmagava a escuridão da noite, dando a impressão de afogar as estrelas que momentos antes cintilavam lá no alto. Um estalido de madeira pisada alertou-me da chegada de alguém. Alguém que eu estava à espera desde o fim dos sonhos. Com passos vagarosos aproximou-se de mim e falou-me ao ouvido; não me lembro das suas palavras exactas, mas sei que implicava a minha morte. Preparei-me para o que aí viesse, as últimas gotas de sanidade a fugirem-me da cara em direcção ao vazio. Senti um aperto no pescoço: duas mãos ossudas, de dedos compridos e frios, apertavam-me a garganta, e mesmo em perigo não pude deixar de evitar a comparação ridícula aos filmes em que criaturas começam a apertar cada vez mais o pescoço do herói até que algo acontece e vira todos os acontecimentos. E então deixei-me ficar, e esperei, pelo momento em que um milagre acontecesse e eu conseguisses salvar-me. Nada. Apenas o meu reflexo no vidro da janela: pálido, rodeado de sombras, vozes a sibilar ao meu ouvido, a pedirem-me que lhes desse vida novamente... Agarrei no meu último suspiro de força e parti a janela! Toda a escuridão que estava do lado de fora entrou no quarto, inundou a divisão, afogou as criaturas, lavou-me de medos e ensopou as lembranças dos sonhadores. E desapareceu. Ofegante, fui até à janela e olhei para o céu: as estrelas saudavam-me com as suas luzes cintilantes, dizendo-me que tudo havia passado e que podia então dormir em paz. Mas faltava decidir: ressuscitar, ou seguir em frente?

8 de dezembro de 2010

Podes fugir mas não te podes esconder.

Por muito que tentemos fugir de nós mesmos, o nosso eterno 'eu' perseguir-nos-á. Assim como a escuridão foge da luz, nós fugimos da verdade, mas o seu reflexo volta sempre para nos atormentar. Mesmo que seja na forma de uma bela mulher de vidro com olhos amarelos.

Sim. Elas estão de volta.

3 de junho de 2010

just because

O Guilherme morreu. A Catarina ficou presa no mundo dos sonhos.

O que escrevo aqui?, perguntaram-me hoje.

O que me apetecer. Quando me apetecer.