Entrei na sala. Estava escuro, como sempre. E frio, muito frio, como se o gelo me corresse nas veias. As lembranças do mundo dos sonhos estavam mortas, enterradas naquele quarto havia muito tempo, e com elas estavam também os restos mortais das minhas personagens. Todos eles, em estado demasiado decomposto para serem reconhecidos, estavam sob os meus pés a pedirem-me o dom da ressurreição, mas eu não lhes dei importância. Dirigi-me então à única janela da divisão e olhei lá para fora. Um nevoeiro perigoso esmagava a escuridão da noite, dando a impressão de afogar as estrelas que momentos antes cintilavam lá no alto. Um estalido de madeira pisada alertou-me da chegada de alguém. Alguém que eu estava à espera desde o fim dos sonhos. Com passos vagarosos aproximou-se de mim e falou-me ao ouvido; não me lembro das suas palavras exactas, mas sei que implicava a minha morte. Preparei-me para o que aí viesse, as últimas gotas de sanidade a fugirem-me da cara em direcção ao vazio. Senti um aperto no pescoço: duas mãos ossudas, de dedos compridos e frios, apertavam-me a garganta, e mesmo em perigo não pude deixar de evitar a comparação ridícula aos filmes em que criaturas começam a apertar cada vez mais o pescoço do herói até que algo acontece e vira todos os acontecimentos. E então deixei-me ficar, e esperei, pelo momento em que um milagre acontecesse e eu conseguisses salvar-me. Nada. Apenas o meu reflexo no vidro da janela: pálido, rodeado de sombras, vozes a sibilar ao meu ouvido, a pedirem-me que lhes desse vida novamente... Agarrei no meu último suspiro de força e parti a janela! Toda a escuridão que estava do lado de fora entrou no quarto, inundou a divisão, afogou as criaturas, lavou-me de medos e ensopou as lembranças dos sonhadores. E desapareceu. Ofegante, fui até à janela e olhei para o céu: as estrelas saudavam-me com as suas luzes cintilantes, dizendo-me que tudo havia passado e que podia então dormir em paz. Mas faltava decidir: ressuscitar, ou seguir em frente?
13 de dezembro de 2010
8 de dezembro de 2010
Podes fugir mas não te podes esconder.
Por muito que tentemos fugir de nós mesmos, o nosso eterno 'eu' perseguir-nos-á. Assim como a escuridão foge da luz, nós fugimos da verdade, mas o seu reflexo volta sempre para nos atormentar. Mesmo que seja na forma de uma bela mulher de vidro com olhos amarelos.
Sim. Elas estão de volta.
Sim. Elas estão de volta.
3 de junho de 2010
just because
O Guilherme morreu. A Catarina ficou presa no mundo dos sonhos.
O que escrevo aqui?, perguntaram-me hoje.
O que me apetecer. Quando me apetecer.
O que escrevo aqui?, perguntaram-me hoje.
O que me apetecer. Quando me apetecer.
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