Pedacinhos de ti espalhados pelo céu do meu mundo brilham em direcção ao mar. Tenho saudades do tempo em que fugir era simples e praticamente resolvia tudo. Não te ter por perto apagou a necessidade de fugir, e agora que voltaste a aparecer não me lembro como se foge. Posso tentar janelas, portas, passagens ocultas para fora da tua presença, mas tu existes e inevitavelmente vais perseguir-me e derrubar a minha serenidade. Afogas-me em tristeza; quero matar o sentimento. Já passou a época dos espelhos e dos vidros: restam apenas as memórias. Elas atormentavam-me, rasgavam o meu discernimento e incentivavam-me a morrer. Aprendi a guardá-las, mas não sei como reaprender a escapar, não me lembro como se faz e sinceramente não sei se quero fazê-lo; talvez não esteja preparado para te apagar.
Olho para as estrelas e lembro-me de ti. Até elas me atraiçoam.
8 de março de 2010
4 de março de 2010
Determinação
Tu, mulher de vidro. Vou banir-te da minha mente e do meu coração; aniquilar-te-ei da minha alma. Recuperarei a minha vida e a minha razão, ficarei livre para viver e respirar, e irei apenas recordar-te sem forma. Para isso, basta-me encontrar o Sol. O isqueiro. O espelho. Ou nada... Talvez algo novo e absoluto. Algo... omnipotente.
"O meu cérebro fica confuso com esta pressão. Se são produtos da mente, devem obedecer aos meus desejos e desaparecer duma vez por todas. As memórias ficam para sempre, mas não é por isso que me devem assombrar. A determinação é a arma mais potente contra as recordações: ataca e derrota toda e qualquer memória perigosa, que possa deitar por terra ou deixar em aflição, com medo, inseguro, qualquer alvo que possa existir."
Encontrei a folha verde: determinação.
Gostava de derrotar assim tão facilmente a realidade.
"O meu cérebro fica confuso com esta pressão. Se são produtos da mente, devem obedecer aos meus desejos e desaparecer duma vez por todas. As memórias ficam para sempre, mas não é por isso que me devem assombrar. A determinação é a arma mais potente contra as recordações: ataca e derrota toda e qualquer memória perigosa, que possa deitar por terra ou deixar em aflição, com medo, inseguro, qualquer alvo que possa existir."
Encontrei a folha verde: determinação.
Gostava de derrotar assim tão facilmente a realidade.
1 de março de 2010
Sol

Meia-noite. Estou de pé, em frente à tua casa, à espera. Nem eu sei o que espero, mas espero. Uma hora, duas, dez, vinte. É sempre noite, não há nascer-do-sol. Acompanhado pelos pequenos animais que esporadicamente passam por mim a correr, sinto-me mais acompanhado que se estivesse rodeado por uma multidão de pessoas. Mas ainda assim, espero. Ouço um piar de coruja ao longe. Um morcego passa rapidamente sobre a minha cabeça e um gato salta do telhado para o jardim. Uma luz acende-se numa das divisões, e consigo ver-te através da janela. A tua sombra pelo menos. Mexes-te como quem tem todo o tempo do mundo, passas de divisão para divisão, acendendo as luzes de cada uma, e eu sigo-te com o olhar. Sonhei com esta noite, ambiciono descobrir o sentido do meu sonho. Esta noite, sei que nenhuma mulher de vidro me irá incomodar; arranjei a barreira perfeita para as impedir de me atormentar. No entanto, não sei durante quanto tempo aguentarei manter o temporal na minha mente que as mantém quietas.
Passo o portão da vedação e dirijo-me à porta, pronto para te confrontar com a realidade. Pronto para te fazer ver o quanto eu tenho razão e como tu não vales nada. Toco á campainha, e espero cerca de 15 segundos. Não obtenho resposta, e volto a tocar. Mais 20 segundos, e nada. Decido então bater à porta com toda a minha força, e ouço a tua voz rouca: "Já vai". Preparo-me para o confronto, tenho a certeza que vais ficar na expectativa. Começa a chover. A trovejar. Abres a porta, e eu sustenho a respiração. És uma sombra. Não tens cara, apenas contornos escuros, és uma sombra somente. Ouço um riso e olho para a rua. Estamos rodeados de mulheres de vidro, e eu não percebo porquê. Achei que elas não gostavam de trovões, e dou-me então conta que não troveja mais, apenas chove. Sem apito, sem espelho, sem isqueiro. Apenas eu, à tua porta, a observar as mulheres, e tu em forma de sombra, atrás de mim, à espera. Desejo destruí-las a todas, recordações fantasmagóricas da minha vida, sem deixar nem uma. Das vezes anteriores, a sua mentora desapareceu em fumo e outras morreram com o som do apito, mas contra estas não posso fazer nada. Não há apito para as matar, nem isqueiro para encontrar a sua mentora, nem sol. O Sol. Preciso do Sol, do seu calor, da sua luz, da sua aptidão para encontrar o caminho certo e afastar estas criaturas de mim e dos meus sonhos. Mas sem Sol, o que me resta? Morrer como das últimas vezes, ou viver e lutar? Prefiro lutar, mas como? Como se derrotam memórias?
Preciso do Sol.
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